sábado, 23 de outubro de 2010

Jogo dos 8 erros (Crítica de Atividade Paranormal 2)

Segue a crítica do colega e amigo Mário Pertile, da equipe do Cena de Cinema, sobre Atividade Paranormal 2.

Quem me conhece pessoalmente ou leu alguns dos meus artigos sabe o quanto eu sou um grande fã e defensor desta nova, não tão nova, metalinguagem do cinema. Me encantam filmes que emulam a sensação de estar em primeira pessoa na história, ou documentários fictícios no que fazem acreditar em algo que não aconteceu por mais ou menos uma hora e meia de nossas vidas.

Para mim, enquanto espectador e não como crítico, o cinema não conta apenas como arte, apelo comercial ou entretenimento. O que levo mais em conta é a experiência vivida durante aquela lacuna de tempo em que estamos na sala escura desprovida de qualquer comunicação com o mundo exterior (talvez o único momento em que isso ocorra hoje em dia). E é isso que esse estilo de filme “tosco por gosto” apresenta ao espectador: um momento único de uma passagem de algo extremo seja fantástico ou corriqueiro, mas que nos coloca dentro da experiência real naquela proposta.

Para quem não está acostumado com esta linguagem que, para desavisados, parece mais um pedaço de filmagem do churrasco de final de semana, cito aqui um belo exemplar: Cloverfield - Monstro, produzido pelo gênio multimídia do século XXI J.J. Abrams e dirigido por um cara não muito conhecido em Hollywood na época, Matt Reeves, acompanhado por Drew Goddard, estreante neste caso, que carregava no portfólio diversos roteiros para a TV, como o aclamado seriado LOST. Também podemos citar o espanhol REC e sua continuação que manteve a mesma qualidade e, fora da ficção,  o documentário A Morte de George Bush que nos faz acreditar piamente que estamos assistindo um documentário real sobre o assassinato do ex-presidente norte americano. Acredito que a expressão chave para o sucesso deste tipo de proposta é “fazer acreditar”.

Já denegri totalmente a imagem do Atividade Paranormal 1, criticando e dizendo que foi a maior farsa da história do cinema. Uma supercampanha viral que não correspondeu às expectativas, ao contrário dos filmes supracitados (Não se pode esperar muito de um filme que mostra no trailer sua cena final XD). Mantenho minha posição nesta sequência, porém não com tanta ênfase, já que o novo roteirista conseguiu resolver diversos problemas do seu antecessor. Talvez o que faltasse no 1 fosse a experiência de quem escrevesse para a televisão, com uma linguagem mais natural do que a cinematográfica. Apesar de chato e arrastado, o roteiro do Atividade Paranormal 2 cria um clima, nos seus 70% de início. O problema é que a conclusão deixa a desejar pela longa jornada de espera a que somos submetidos.

No livro O Pequeno Príncipe tem aquela clássica frase: “Somos responsáveis por tudo aquilo que cativamos”. Atividade Paranormal 2 cria o clima, cativa, prende o espectador até certo ponto, brinca com os nossos sentidos. Mas brinca demais e na hora de nos apresentar algo sério, o termômetro da substancialidade não chega nem a ficar amarelo, quiçá vermelho.  De atividade Paranormal mesmo temos meia dúzia de cenas que assustam pelo barulho estrondoso de portas de armário batendo...e mais portas de outras coisas batendo. Ah não, não só portas, tem uma cena que uma panela cai também.

Fazendo um resumo da estética do filme, uma solução muito boa por sinal, mas que já foi usada em um outro filme mais antigo, O Olho que Tudo Vê, o lance das câmeras de segurança pela casa,  deixou o filme um pouco (eu disse um pouco) mais dinâmico que o primeiro. O problema é que este filme é uma colagem atrasada de tudo o que já cansamos de assistir: câmeras a la Big Brother de diversos filmes, câmera na mão no porão com visão noturna igual ao REC, com as coisas acontecendo fora do alcance da mesma, caída no chão (repito, IGUAL AO REC), bebês em perigo por causa de forças demoníacas e outros clichês que são inovadores somente para quem nunca assistiu um filme desses, estilo uma família normal numa situação ferrada e uma câmera na mão. Alien Abduction filmado no interior do interior dos EUA sem atores profissionais e sem dinheiro faz isso bem melhor com uma câmera VHS.

Atividade Paranormal 2 é uma sucessão de imagens amplas que mais parecem um jogo de 7 erros, onde ficamos minutos procurando algo estranho na tela, e não encontramos.  O 8º erro é pagar o ingresso para assistir ao filme.

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